T BarataLenda da Moura Encantada
Estava a moura sentada à Eira das Casas, penteando os seus belos e louros cabelos com um pente de ouro, quando ali passou uma mulher.
A moura dirigiu-se à mulher e pediu-lhe para deixar encostar a sua língua à dela, a fim de ser como ela.
A mulher recusou tal pedido e prosseguiu o seu caminho. Contudo, antes de partir, a moura entregou-lhe um pedaço de carvão e disse-lhe para o guardar num sítio seguro de sua casa, pois este iria transformar-se em ouro.
A mulher aceitou o carvão, colocando-o no avental. Mas, chegando ao primeiro barroco atirou-o para lá e sacudiu o avental.
Ao regressar da fazenda, lá estava a moura sentada à Eira das Casas. Esta fez-lhe o mesmo pedido e novamente foi recusado pela fazendeira, que prossegui o seu caminho. Quando chegou a casa viu duas pepitas de ouro no
seu avental.
No dia seguinte voltou a passar pela moura. Esta encontrava-se a coser, tendo junto dela uma tesoura e um dedal de ouro. A mulher espantada com tal riqueza, gabou-lhe aqueles instrumentos.
A moura ao ver a mulher tão encantada, ofereceu-lhos. Mas ela recusou-os. A moura não insistiu com ela, mas antes de a deixar partir disse-lhe que nas hortas, para o lado das corelas, estava uma grande riqueza. E que entre os chãos e o vale de ermida estava uma riqueza prometida (a riqueza do mineral).

Tia Barata


O homem que comia sete broas
Era uma vez um homem casado e com sete filhos que comia sete broas por dia.
Um dia resolveu partir, pois tinha de ir ver de trabalho para se sustentar a ele e à sua família.
Foi de terra em terra, dizendo “Aqui vai um soldado que se quer assoldadar, mas come sete broa por dia”. Com esta cantilena ninguém o queria.
Chegou a uma certa terra e um senhor fê-lo seu criado durante 20 anos. O homem durante esse tempo não deu notícias à mulher.
O seu senhor foi-lhe cortando na comida, ou seja nas broas, até chegar ao dia em que apenas ficou a comer metade de uma broa por dia.
Nesse dia o patrão perguntou-lhe se ele tinha ficado saciado e ele respondeu-lhe que sim, que não tinha fome.
Passados 20 anos o homem disse para o patrão que tinha muito amor à família, daí que iria para a sua terra.
O patrão concordou com a sua decisão, pois já lhe tinha metido regime na boca e já lhe tinha dado oportunidade de guardar algum dinheiro. O senhor deu-lhe uma broa para ele comer durante a viagem e outra para comer juntamente com a sua família. Para além de tudo isto deu-lhe alguns conselhos. Aconselhou-o a nunca perguntar pousada onde houvesse só mulheres e a não se meter em atalhos, pois meter-se-ia em trabalhos.
Ouvidos os conselhos, o homem fez-se ao caminho. À noite, numa determinada terra, encontro uma mulher e pediu-lhe dormida.
Esta logo se dispôs a acomodá-lo. Mas, uma velhinha, que tinha ouvido a conversa deles, disse ao homem que era preferível ir dormir num forninho que ficava ali perto. Ele pensou no que o patrão lhe tinha dito e segui o conselho da velhinha.
Durante a noite ele ouviu tiros e muito barulho, mas deixou-se ficar quietinho. De manhã, quando saiu do forninho, lá estava a velhinha. Esta disse-lhe que se ele tivesse ido dormir a casa da outra mulher que àquela hora já não estava vivo. Pois, o marido da tal mulher, que esteve ausente durante algum tempo, tinha regressado e matou quantos homens encontrou na
sua casa. Ele agradeceu à velha e prosseguiu o caminho. Entretanto, encontrou um homem que o aconselhou a ir por outro caminho, pois, assim, chegaria mais depressa a casa. Mas, ele recusou.
Passado muito tempo, finalmente, chegou à sua terra natal. Passou junto da sua casa e viu lá a sua mulher sentada à porta. Ele passou e ela não o reconheceu. Muito triste, foi até à tasca e encontrou lá alguns dos seus conterrâneos. Contou-lhes o seu passado e a mágoa da mulher não o reconhecer.
Eles foram com ele até junto da sua mulher e deram-lhe a boa nova. Felizes, entraram em casa, reuniram todos os filhos e sentaram-se à mesa, a fim de conversarem e comerem todos a broa que o patrão lhe tinha dado.
Ao abri-la viu que ela estava cheia de ouro.

Tia Barata


História da minha vida
Meu pai e minha mãe eram pobres, mas leais. Trabalhavam de dia e comiam à noite, na paz do Senhor.
A minha mãe teve sete filhos, morreram cinco. Depois apareci eu.
Minha mãe colocava-me dentro de um cesto e ponha-o em cima da sua cabeça. Eu chorava com o frio e minha mãe cantava para eu me acalmar, mas o frio era muito.
Eu lá fui crescendo. Passei muita fome. Mas, depois da morte dos meus avós, nós ficámos com muitas terras, daí termos muito milho e azeite.Com seis anos comecei a guardar as cabras e as ovelhas.
Aos dezassete anos, a minha querida mãe morreu. Entretanto, o meu pai aos 65 anos casou com uma mulher de 35. Desse casamento surgiram 5 filhos. Eles a partir dos 5 anos saíram de casa, foram para trás de serra
trabalhar. Eu pensei que o melhor seria casar-me. Apareceu-me um rapaz. Meu pai tanto me chateou, até que um dia irritada, cheguei a casa despejei o cântaro da água e fui para a ponte. Lá encontrei a irmã do tal rapaz e pedi-lhe que
ela lhe fosse dizer para ele se apresentar o quanto antes em minha casa. Fui para casa e ele, pouco tempo depois apareceu lá. Deu a salvação ao meu pai e fez o pedido. O meu pai aceitou o namoro. Eu não abri a boca. Depois do pedido o meu pai disse-lhe que não o queria lá em casa quando eu lá estivesse sozinha e que nem experimentasse ir ter comigo a alguma fazenda.
Para além destas recomendações, mandou-nos ir arranjar os papéis para o casamento. Assim foi. Passado um mês casamo-nos.

Tia Barata

Mais um episódio...
Um dia estava na taberna o Zé Parente e o Zé Domingos. Estavam bêbados que“nem um cacho”. Viram subir a rua dois guardas (GNR), entretanto começaram a cantar:
“Pus-me a cagar de joelhos
para não borrar o capote.
Dei um peido ao ar
que fiquei nas ânsias da morte.
Pus-me a cagar de joelho,
no cagar tenho prazer.
Cago polícias fardaos
pelas ruas a correr.”

Tia Barata

As orações diárias da Tia Barata
Na minha cama me deito
Para dormir e descansar,
Se a morte vier
Deixai-me falar.
Encosto-me ao cravo,
Abraço-me à cruz
Entrego a minha alma
Ao Menino Jesus.

Com Deus me deito, com Deus me levanto
Com graça ao Divino Espírito Santo,
A Nossa Senhora me cubra com o seu Divino manto.
Se dormir, embalai-me
Se morrer, iluminai-me
Com as doze candeias da Santíssima Trindade.

Ó Senhor do conforto
estais vivo e fostes morto.
Perdoaste a vossa morte
um “credum” tão forte.
Perdoai-me todos os meus pecados
Esquecidos e lembrados.
Perdoai-me, Ó meu Senhor
Sois o Rei da verdade
Na hora da minha morte
Tende de mim piedade.

(Oração da Hora da morte)
Alma de Cristo santificai-me,
Corpo de Cristo salvai-me,
Suor e sangue de Cristo “ lubriai-me”,
Água de lar de Cristo lavai-me,
Paixão de Cristo confortai-me.
Meu bom Jesus ouvi-me,
Dentro das Vossas chagas escondei-me.
Não permitais que me separe de Vós.
Do espírito maligno defendei-me
Na hora da minha morte chamai-me
Mandai-me para junto de Vós,
Para que Vos louve com todos os anjos e santos no Paraíso.
Para todos os séculos. Ámen

(oração que Tia Barata aprendeu ao ver um filme sobre o nascimento de Jesus.)
Noite de Maria “dosa”, noite de santa alegria.
Vinde lá São José mais a Virgem Maria.
São José foi buscar-me no último mistério.
Vem São José com o lume, achou Virgem parida.
Avé Maria rezada ao Céu foi subida.
O Santo Pai Eterno lhe disse como ficou Maria.
São José respondeu “Maria ficou coberta de ouro quanto Ela merecia”.
As toalhazinhas onde embrulhavam o menino eram de ouro de lã fino.
O berço onde o embalavam era de galante fino.
Quem esta oração disser, um ano dia – a -dia
achará as portas do Céu abertas e a Virgem Maria.

Deus adiante e paz na guia
Deus ande comigo e com toda a minha família.
Que não sejamos presos nem mortos
Nem feridos nem culpados,
Com as almas de S. Jorge
Andamos bem armados, como foi Jesus Cristo,
No ventre de sua mãe nos portais de Belém.
Que toda a gente que nos veja, nos fale e nos queira bem,
Como me quis Jesus Cristo, para sempre Ámen.

Oração do justo juiz
Jesus Cristo filho da Virgem Maria, vale de Nazaré onde foste crucificado
no meio da judiaria.
Senhor em paz por este dia, que o meu corpo e o da minha família
Não sejamos mortos, nem presos, nem em justiça envoltos.
Nosso Senhor disse para os seus discípulos: “Paz século, Paz século”
Que os nossos inimigos tenham ouvidos, mas não nos ouçam,
Que tenham olhos, mas não nos vejam,
Tenham mãos, mas não nos matem,
Tenham boca, mas não nos falem.
Nós na arca de Noé vamos arrecadados.
Com as chaves de S. Pedro vamos fechados.
São três cálices revestidos, três hóstias consagradas
Três cálices divinos e o fiador disso tudo.
É o filho da Virgem Maria, reza-lhe um Pai Nosso e uma Avé Maria.

 

Quando a Tia Barata lhe falta a memória, repetidamente diz: “ Meu Jesus vinde a meu auxílio”


CapelaCuriosidades contadas pela tia M ª Benta
Havia uma mulher chamada “Ti Rosa da barriga grande”.
Esta mulher vendia fruta na praça da Panasqueira. Os anos passaram e a
mulher continuava com uma barriga enorme, como se estivesse prenha.
Por volta dos seus 77 anos foi internada num hospital. Lá fizeram-lhe uma
operação e da barriga tiraram-lhe um bicho com três cabeças.
O bicho teve de ser morto através de muitos tiros e a mulher nunca mais se
soube nada dela.

A Morte
Antigamente, quando morria alguém as mulheres não lavavam a casa durante três semanas (durante o tempo dos acompanhamentos), e os homens não faziam a barba, também enquanto os acompanhamentos durassem.

Um pouco da minha vida...
Fiquei viúva aos 21 anos. Deste modo, trouxe uma mantilha durante 4 anos.
Para além disso, na lavoura não tirava o xaile da cabeça. Como o meu homem era “sortejado”, herdei metade da sua fazenda. Deste casamento tive uma menina, mas morreu com 4 meses.
Voltei a casar-me. Deste segundo casamento tive 8 filhos. Infelizmente, já torno a estar viúva há 30 anos.

Os “Salti-Pilha”
Eu era uma mulher muito resistente e valente, nunca deixei tomar as bacias do mineral aos guardas. Quando os via a chegar, puxava a saia para os joelhos e corria que nem uma galga. Depois vendia o minério a alguns homens de cá da terra.

Curiosidade…
Antigamente, mais ou menos nos anos 60, quando havia casamentos, era uso os pais dos noivos darem às crianças, que se dirigiam às suas portas, uma fatia de broa com arroz de fressura.
Mais tarde, em vez de arroz de fressura, passaram a dar-lhes rebuçados. Depois de celebrada a missa, o padre acompanhava os noivos à porta de casa dos pais da noiva, pois era lá que se comia o almoço. Quando ele (o padre) lá chegava o noivo dizia-lhe “ muito obrigado ao Senhor Prior e a todos os que me vieram acompanhar. Os convidados façam favor de entrar. Quem não é convidado, se quiser beber um copo faça o favor de esperar.


Músicas cantadas pela tia Barata

Que fazes ó criancinha, que fazes aqui tão cedo
Ai quero ir ao cemitério
Ai mas sozinha tenho medo.

Ao cemitério não vais, que lá não mora ninguém.
Ai mora sim senhora coveira
Ai minha saudosa mãe

Então tu já não tens mãe, criancinha tão pequenina
Ai já não tenho pai nem mãe,
Vivo no mundo sozinha.

Então tu já não tens pai,
O meu pai morreu na guerra,
Ai foi o que ajudou a levar a minha mãe a pedir a terra.

Então tu não tens irmão, criancinha tão desgraçada
Ai tenho sim senhora coveira
Ai tenho uma irmã que é parva.


Já vi um rato a ler
Um grilo a dar escola
Nas asas de uma formiga
Formou-se o jogo da bola.

Já vi uma mosca prenha
Depois de prenha pariu
Depois de parir morreu
Depois de morrer fugiu.

Minha mãe abelha-mestra
Minha casa é uma colmeia
Sai a mãe, casa vazia
Vem a mãe, casa cheia.


Quem me dera uma mãe
Antes que fora uma silva
Por mais que ela picasse
Eu era sua filha.

Minha mãe para eu me casar,
Prometeu-me tudo quanto tinha.
Quando foi ao dar do dote,
Deu-me uma agulha sem linha.

Minha mãe para eu me casar,
Prometeu-me uma panela.
Quando foi ao dar do dote,
Partiu-me a cara com ela.

Minha mãe logo à noite,
Maria vai-te deitar.
Ela julga que eu durmo,
Minha vida é namorar.

Namorei-me, namorei-me,
Não me soube namorar.
Namorei-me de um vadio,
Que não me soube estimar.


Quando eu morrer não quero ser enterrado
Quero que me vão meter na pipa de abafado.
Quando eu morrer não quero ser careca,
Quero ser acompanhado por uma velhota marreca.
Quando eu morrer quero a cova bem tapada,
Não vá lá a minha sogra ferrar-me uma dentada.


Ai ó Manuel, Manuel o teu nome é tão bonito,
Ai eu queria casar contigo, eu sou pobre e tu és rico (bis).

Ai ó Manuel, Manuel todavia te desejei
Ai agora já o cá tenho, ai caiu na sopa como o mel (bis).


Toda a vida guardei gado, também guardei ovelhas.
Quando elas amuavam eu puxava-lhe as orelhas.

Toda a vida fui pastora, toda a guardei gado
Trago uma chaga no peito de me arrumar ao cajado.


Música cantada pela tia Maria Antónia

Solteirinha não te cases, goza-te da boa vida,
Eu já vi uma casada, que chora de arrependida.
Solteirinha era eu, me “laja” quem me casou,
Tão alegre que eu era, e agora tão triste sou.
Quando eu era solteirinha, usava fitas e laços,
Agora já sou casada, trago os meus filhos nos braços.
Solteirinha era eu, raminho de andar à mão,
Agora sou a vassoura, com que varres o chão.


Responso de Santo António
Ó meu Divino Santo António, ó meu Divino companheiro que está em minha
casa com todos os milagres que obraste.
Em volta de Ti tens os letreiros dos milagres que fizeste. De coisas
perdidas, de gente em viagem, por terras, por estradas e por cidades onde
caminha Santo António. Guardai-os bem guardadinhos que não sejam presos,
nem mortos, nem de justiça envoltos.
Sei que és muito milagroso, curaste criancinhas, tantos milagres fizeste.
Agora te peço todas as coisas perdidas. Quem nas achou não possa comer,
nem dormir, nem descansar enquanto ao seu dono não lhe forem entregues.
Tu, milagroso Santo António, meu Divino companheiro espero que todas as
viagens que eu fizer, de noite ou de dia, me cubram com a tua capa. Serei
bem louvado. Tudo quanto te pedir eu serei atendida, porque és milagroso,
tantos milagres tu tens feito.
Obrigada milagroso Santo António porque eu tenho muita Fé em Ti, tenho Fé
em Ti que eu serei atendida.

Tia Maria Zé do Paulo