Inventário

Nunca tive nada...

Na minha infância apenas houve sonhos;
o resto foi sobrevivência.

Cheguei depois de muitos irmãos
e o tempo da minha mãe era para cozinhar e remendar
e para o amanho das terras.

Cheguei quando o meu pai já alquebrado das minas
vinha nos fins de semana a casa.

Cheguei no ano da fome de quarenta e cinco
e os meus irmãos já serviam
espalhados como formigas à procura de pão.

Cheguei no meio das brenhas e não vinha preparado
e o canto dos pastores a subir aos montes
eram desejos irrealizáveis.
E a escola a ficar ao lado.

Nunca tive nada...

Na minha infância a angústia tumefactava-se
- afora nas noites de começos de outono
em brejeiras debulhas de milho
ou nas frescas madrugadas
no gatinhar dos chãos quentes dos matos
ou no orvalhado das hortas
em ansiosas caçadas de pássaros
onde tudo se alheava.

Nunca tive nada...

A minha infância acabou no asilo da cidade
onde as vidas dos velhos se apagam
como a luz de velas ao vento.
Lá quase me mata a saudade pelas brenhas.
E começo a fazer-me homem.

Nunca tive nada...

Até quando quis amar-te
não foi mais que amar daquém
- um amar de quem traz do ventre materno
amarras que só têm o longe por distância.

Um dia partiste, noutro chegaste
e foi um chegar de longe e longe ficar
que ainda perto já longe me estavas.

Nuncas tive nada...

- afora o que vi nos teus olhos
e os teus beijos me transmitiram.

Nunca tive nada...

- afora a coragem de viver!...

josé do fetal
Lisboa/1977