altCorre o ano de 1948,fins de Julho. A Festa dos Mineiros na semana passada foi, segundo os Mordomos, a mais rija de que há memória. Da encosta da Abeceira nunca tantos foguetes se botaram pró ar. O Andor de N. Sra. das Dores nunca tantas e tão lindas flores carregou. A nossa Filarmónica nunca tão longo repertório tocou debaixo da frondosa mimosa à Eira. Os enfeites de folha linda nos largos e ruas nunca foram tantos e tão artísticos. Nunca tantos presuntos e chouriços foram leiloados à porta da Igreja. O Pe. Leal nunca tanta paixão e dramatismo conferiu ao sermão que ele desferiu sobre o Povo de Cebola.

 

Um garoto de oito anos, de calcas curtas empoeiradas e pernas cobertas dos vestígios das caneladas apanhadas nos jogos à bola, também é da opinião de que a Festa foi das valentes. Dos Mordomos da próxima Festa iremos de certo ouvir, que a deles é que nunca teve igual. As três badaladas do sino informam-nos de que o dia vai nas três horas da tarde. A maioria dos Cebolenses não possui relógio próprio. Para medição do tempo passado orientam-se pelo sol e pelo sino. Desde há quinze dias que se não vê um farrapo de nuvem no Céu. A temperatura deve andar aí pelos 35 graus à sombra, senão mais. Todo o Vale de Cebola, desde a Portela a Porssim, está transformado numa torradeira.

Dos pássaros nem um pio se ouve. Os cães, espojados de patas pró ar à sombra das quelhas, até nem gana têm para ladrar. A letargia tomou posse de gente e animal. A calma e o silencio são apenas quebrados pelo canto das cigarras ou pelo chamar duma mãe "Ò Maria, anda daí prá sombra! Estás maluca, andar aí com este Sol?!"Ou ainda pelo barulho longínquo e monótono das infernais máquinas de trituração na Lavaria da Panasqueira. Os sete inseparáveis garotos da "malta da Eira",todos entre os sete e treze anos de idade, estão sapados à sombra da casa da Tia Preciosa, ao cimo do Cascalhal. Só se mexem para enxotar as moscas que os molestam. O António Batista "Moita"está na sorna, encostado à parede. Não admira. Ainda das bandas de Porssim se não enxergava um raio de Sol, já o rapaz vinha por essa serra abaixo com um valente molho de mato em cima do lombo. Sem mais nem menos, como se um escorpião o tivesse arranhado no traseiro, o Faustino alavanta-se num pulo e berra, "po---! (palavrão censurado pelo autor) Com este calor, vamos agora é nadar! Morra quem se negue!"O António, arrancado da soneca, só percebeu "quem se negue" e pergunta,"negar o quê?"O João Abílio põe-o ao corrente do que se passa. A ideia é logo aclamada por todos. Há agora só um problema.

Qual a presa aonde ir? O Faustino propõe,"vamos pró Poço das Dornas!"O Ramiro atira, na sua maneira de falar compassada,"quaaal quêêê...!É muito looonge! Vamos é à Presa do Ribeiro Soouto!"O garoto desta stória, que não sabe nadar, berra,"pró Poço da Calhandra é que vamos!"Este Poço fica ao fundo da Abeceira, um pouco acima da Ponte. O Jorge Alves, por entre gargalhadas de fazer pouco, aventa,"é pá! Nesse poçosito, a água nem ao cú nos chega! Vamos é à Presa do Ribeiro Souto e basta!" O Xico do Ribeiro Souto, o António e o João também são a favor desta última. A proposta da maioria vale. Os garotos nunca ouviram falar de Platão, Aristóteles, Sócrates e toda essa malta que inventou a Democracia, mas sabem muito bem como ela se pratica. Consequentemente, desatam a correr pelo Cascalhal abaixo, direitos à presa eleita. O António, que conquistara a posição da frente, berra "ena pá! A presa está a abarrotar!"O Faustino berra (desde que este lançou a ideia, só se berra), enquanto atira a roupa dele pra cima duma fraga,"não está cá nenhuma mulher a lavar. Vamos nadar encarrapatos!"A Tia Maria Antónia, a única mulher que estava no ribeiro, acaba de passar por eles com o cesto de roupa já lavada à cabeça. O Xico, o que melhor sabe nadar, atira-se do ramo duma oliveira para o sitio mais fundo da presa, junto ao alganel. Mesmo depois do terrível acidente no poste de alta tensão eléctrica, que lhe roubou os braços e pernas, continuaria a ser um nadador excelente. O Jorge berra, depois dum achafundo e com a água turva de lodo a escorrer-lhe pelos queixos abaixo "é malta! A água está mesmo porreira!"Um Controlador da Saúde Pública de hoje deitaria aflito as mãos à cabeça, tantas eram as bactérias nocivas que se acotelavam debaixo do olho investigador.
O sino acaba de anunciar as cinco horas da tarde, quando o João, agarrado ao pontão da presa, solta um berro de alarme,"é malta, toca a vestir os trapos! O Pe. Júlio vem aí pelo ribeiro arriba!" Em menos de dois minutos já se não vê nenhum carrapato, se bem que deste nosso liberal e tolerante conterrâneo não haja ralho a temer. Apesar disso, os garotos nunca deixam de lhe tributar o respeito devido. De resto, depois de quase duas horas de gozo, já é tempo de sair da água.

Acompanhado por alguns rapazes mais graúdos, o Pe. Júlio regressa da fonte, aí uns duzentos metros abaixo da presa, onde passaram as horas de maior calor. Um fiozito de água fresca e cristalina brota duma fraga coberta de musgos, num sítio aprazível do ribeiro. O garoto olha apreensivo para as mãos branquinhas e cheias de rugas, de tanto andar na água, a pensar no par de lambadas que o pai lhe vai dar, se der por ela. Estafados e esfomeados, os garotos arrastam-se pelo Cascalhal arriba direitos a casa. Pelo caminho ainda espreitam para as garotas a brincar no chão acima da casa do Ti. Faísca. A Ilda, a imitar o janota Pe. Brito,"celebra"uma missa à frente de quatro ou cinco garotas. De Altar serve-lhe a parede do caminho para o Adro. Às risadas dos garotos, elas respondem arreliadas"Ide prà merda, seus taboucos!"Chegados a casa, vão direitos à dispensa da cozinha, onde se fortalecem com uma bucha de broa com azeitonas. Quando se quer esgueirar prá rua, o garoto cai debaixo do olhar crítico da mãe, que em tom imperativo o manda cortar o cabelo: "Ó filho, olha para essa chacena! Vai já ao Barbeiro cortar esse matagal! E pelo caminho pergunta na loja do Ti. Barata Regedor se a bateria para o rádio já está carregada"."Ó mãe! pode-me dar dez tostões para um pirolito?", pergunta ele cheio de esperança. Enquanto bebe o pirolito à porta da loja da Tia Silvina, ouve dum grupo de raparigas nas escaleiras em frente,"ai que linda! Posso ver como me fica? Deixe ver aquele anel!"O Sr. Manuel "Ourives",um homem de cortesia e amabilidade exemplares, tira pecas de ouro e prata duma caixa metálica à sua frente, fascinando as raparigas que o rodeiam. Depois de se ter deliciado com o refresco, o garoto vai-se sapar no camouco à porta da Barbearia, luzidio de tantos traseiros que nele já se sentaram e espera pela sua vez. De cinco em cinco minutos vai espreitar à esquina, para ver se a Florinda vem à varanda, para lhe dar um aceno. Da taberna da cruz da rua ouve vozes exaltadas, berrando,"atão!?...Como é? Toma aí! Trunfo!"Alguns homens jogam a "sueca" e esmurram as cartas pra riba da mesa, como que a quererem desaviar-se da agressividade que os morde.

Sentados nas escaleiras da casa do Xico "Ganhão", alguns homens "mais instruídos" palestram em alto e bom som sobre como os problemas deste mundo devem ser resolvidos. O quê? Os comunistas ocuparam os países da Europa Oriental? Atão os americanos que lhes despejem tantas bombas para cima como anos antes despejaram aos alemães e japoneses e ides ver como o problema fica aviado! O garoto tudo isto ouve, mas não entende nada. Os sinos comecam a tocar "às Trindades". A conversa é de imediato interrompida e todos se alavantam e tomam prumo. Em todas as ruas e quelhas, dos Torgais à Costa e do Pombal à Abeceira, toda a gente se queda onde está. Nas hortas, as mulheres param com o trabalho e apoiadas à sachola, dirigem o olhar ao céu. Enquanto o sino toca, reina o Silencio e a Compostura em todo o vale de Cebola. Só o raio dos cães é que não há meio de calarem o focinho. Depois do corte de cabelo, com o cachaço ainda a arder do álcool desinfectante com que o Tónio o tinha despachado, o garoto agocha pela Rua Direita arriba e dá uma espreitadela para o Tronco, onde o Ti. Alfredo Ferrador está a fazer horas extraordinárias, ferrando as patas do cavalo do Ti. Pedro.

Chegado à Eira logo enxerga os amigos espojados na "Escorradia", a onde vai direito. Os robustos bois do Xico afastam-se pachorrentamente do tanque da fonte, onde acabam de ter saciado a sede. O garoto segue-lhes o exemplo e o Jorge pranta-se ao seu lado a assobiar e a chamar "é burro!..." Como resposta, aterra-lhe segundos depois uma ogadela de água do tanque na cara. É o sinal de partida para o resto do grupo se juntar a eles para uma renhida batalha, a ógarem-se uns aos outros. Duma janela da casa do garoto chega-lhe o berro do irmão mais velho,"é rapaz! toca a andar pró jantar! Mas rápido!" Sabendo que a família de oito pessoas só começa a comer quando todos estão presentes, desata logo a correr pra casa, ciente de que é o último a comparecer. Na varanda espeschêda mas estreita, envolvida pela ramalhuda trepadeira, já toda a família tomara lugar à mesa no tosco banco comprido, de frente pró Monte Carvalheiro. É aqui ao ar livre que a família nos dias de calor sempre toma a ceia. Enquanto morde num naco de broa, o garoto regista o que se passa na serra em frente. Vê o Cego do Pombal abrir a presasita e a regar a sua esmerada horta junto à pedreira da Abeceira, sempre com a sachola a apalpar, sem tropeçar uma única vez! Mais arriba, a meio da serra, alguém abre uma presa. A água só se ouve primeiro correr, desaparecendo no matagal abaixo, para momentos depois aparecer ao lado do curral dos vivos, despenhando-se das paredes das hortas pra baixo.Com duas, três sacholadas, a água é conduzida para as couves, cebolas, feijões, nabos e mais. Dos lados da Abeceira ouve a Tia Laura chamar, "Ó Marcelina! Vem daí pra casa!"Seis ou sete mineiros em fila, gasómetros pendurados no ombro, passam cautelosos pela brêda estreita e perigosa dos Barreiros .Se um deles der um passo em falso, atão rebola por aí abaixo e só para no ribeiro.

À pergunta do garoto, "como é que os barreiros foram ali parar?",responde-lhe um dos irmãos,"sei lá pá... são talvez restos deixados por um oceano qualquer que há milhões e milhões de anos ainda inundava Cebola." As andorinhas despedem-se do dia, brincando ao "qual é a mais veloz" e soltando o seu alegre sri, sri, sri. Depois da última dentada, o garoto esgueira-se de novo prá Eira, para continuação da batalha à volta da fonte, desta vez com a participação das garotas. O sino badala as 9 horas da tarde. A camioneta das 20,30 vem hoje outra vez atrasada, mas já se ouve a apetêr às Alminhas. Os garotos interrompem de imediato a brincadeira e desatam a correr prá Ponte, para verem a camioneta chegar à porta do Ti. Cardoso, ver quem lá vem e trocar um cavaco de conversa com o Fernando. Saciada a curiosidade, voltam nas calmas prá Eira. Pelo caminho ainda assomam à porta escancarada da garagem do Ti. Bernardo, para admirarem o seu espada americano e passarem pelo menos uma vez com a mão por riba das letras da marca Mercury, a reluzirem na carroçaria branquinha. A mulher dele aparece à janela e grita, "embora daí, sua cambada de vadios!"Ao Passadiço, dão de caras com o Mudo do Terreiro, gesticulando todo furioso. O João, que é o que melhor o entende, traduz "ele sabe que nós fomos à caminhêta e está arreliado por o não termos chamado. Eu prometi-lhe que da próxima vez o não vamos esquecer".Apesar da sua deficiência de não ouvir e não falar, o Mudo é estimado por todos do grupo pela sua contagiante boa disposição, sempre pronto para uma "conversa" animada e divertida. Chegados à Eira, já a Lua cheia tinha acabado de assomar ao cimo do Monte Carvalheiro. A gente graúda vai ocupando os degraus das portas e escaleiras à volta do Largo. A garotada ocupa a "Escorradia".

Iluminação pública não existe. Hoje também não faz cá falta nenhuma! A claridade mágica do luar chega e sobra para alumiar esta nossa bela Esplanada. Só no vindouro ano 1959 é que a luz eléctrica cá chega, muito depois de a sede de concelho se ter presenteado com um edifício municipal de pompa. Da casa do Faustino chega um cheirinho a morcela e feijões cozidos. O Ti. Zé Benjamin tira calmamente uma pitada de tabaco duma latita pra riba da mão, aspira e põe-se a espirrar, como que a querer assim catapultar prá rua as canseiras e cuidados do dia.

Na varanda da sua casa, o Ti. Jorge toca "Abril em Portugal" no seu novo acordeão, acompanhado pelo pai à guitarra. Dos lados do Pombal chegam os acordes da marcha "Velhos Camaradas", tocados por um músico da nossa Filarmónica no seu Clarinete. Dos lados da Tapada ouve-se um coro de vozes jovens e alegres, cantando "Ó Malhão, Malhão...
tirimtimtim",misturadas com o bater de cajados em riba de massarocas de milho. É a grande malhada anual do milho do Ti. Alexandre. Os filhos e netos dos cebolenses no Canadá, Brasil, Alemanha, Franca, não pensem que malhar o milho era considerado trabalho! Nada disso! A malhada do milho era um acontecimento da vida social de Cebola, tão apreciado como hoje os Events na "Stadthalle"de Neuss pelos alemães ou no "Commodore Ballroom" de Vancouver pelos canadianos! Quem sabe quantas histórias de amor dos vossos avós numa malhada tiveram o seu começo...? Para a próxima malhada do Ti. José no sábado que vem, no seu palheiro à Fontanheira, já está a lotação de comparência esgotada. O garoto anda como um sino, desde que os pais lhe deram autorização para tomar parte. Duas primas também já anunciaram a sua comparência. Três garotas, sentadas nas escaleiras da casa da Tia Rosa, procuram acertar o canto com o vindo da Tapada. Os grilos não se deixam ficar atrás, juntando-se com o seu habitual concerto. Os garotos preferem um desafio com a bola de farrapos. Das bandas do Cascalhal ouve-se duma das garotas que jogam à Bilharda,"ó pim,ó redor..."Outras correm atrás umas das outras, atravessando-se nas jogadas dos garotos. Estes não vêm motivo de se arreliarem, pois é uma oportunidade de travarem engate com elas, como começo dum possível namorzito. Quem sabe em que vai dar?... Sentados nas proximidades, os pais gozam o merecido descanso depois dum árduo dia de trabalho, ao mesmo tempo que lançam um olho vigilante sobre as filhas. A magia desta noite é abruptamente interrompida por um triste acontecimento, que infelizmente se repete quase todos os meses, por dois ou tres dias, sobretudo pela altura de lua cheia. O nosso António da Costa acaba de aparecer à Eira, braços cruzados no peito e a rebolar pela íngreme e fragosa calcada abaixo, balbuciando "Nossa Senhora! Nossa Senhora!"A Ciência médica não sabe o que o aflige. A Tia Delfina murmura,"Nosso Senhor tenha compaixão dele!"Com a sua robusta constituição física e nobreza de carácter nosso António é considerado e estimado como um dos melhores trabalhadores de Cebola, quando os ataques da doença o não torturam.

Da torre sineira soam doze badaladas. Aqui e além já se ouve "Boas Noites vizinha! Até amanha, se Deus quiser".O garoto, com o suor a correr-lhe pela pinha abaixo, ainda a coxear da recente canelada cravada pelo Ramiro, refresca-se uma última vez na fonte e desaparece para casa, onde logo cai na cama. Através da janela escancarada do quarto escuta já meio ensonado a melodia com que esta noite de verão, num verdejante vale perdido na Serra do Açor, o presenteia: o incansável cri cri cri dos grilos, a conversa entre os sapos nas hortas, o leve ramalhar das folhas da trepadeira e das oliveiras no quintal sob a brisa ainda morna, o murmurar das águas de rega para os lados do Ribeiro Souto, o eco vindo dum mocho mais acima num barrôco... e... adormece.

Sebastião Batista